domingo, 25 de março de 2012

Sinhá Moça

Uma raríssima pérola negra do Brasil

por Jorge Marcelo Gomes de Oliveira

Ruth de Souza foi a primeira atriz brasileira a concorrer a um prêmio de interpretação feminina num Festival de Cinema internacional. Isso aconteceu em 1953, quando Ruth estava no páreo no Festival de Cinema de Veneza (Itália), por sua atuação no filme Sinhá Moça. As outras concorrentes eram Katharine Hepburn, Michele Morgan e Lili Palmer, a vencedora. Mesmo não levando o prêmio, a honra de ser indicada a concorrer a este prêmio foi um divisor de águas na carreira desta grande atriz brasileira. E imagine ainda sendo uma atriz “negra”?

Esta informação é apenas uma das muitas que constam no livro Ruth de Souza: a estrela negra, da escritora Maria Ângela de Jesus, da coleção Aplauso Perfil, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Oportunidade rara de conhecer um pouco da carreira desta importante atriz do cinema, televisão e teatro brasileiro, numa obra recheada de relatos bastante pessoais, contados pela própria atriz, além de oferecer uma galeria com belíssimas fotos do seu arquivo pessoal (e de colaboradores).

Além da importância de conhecer um pouco melhor a carreira da atriz, o livro ainda serve para mostrar alguns aspectos do dilacerante processo da discriminação racial e a forma (e também a estratégia) que a artista conseguiu sobreviver.
Eliana Lage e Ruth Souza no filme “Sinhá Moça”, de 1953

Numa das passagens, Ruth conta a estória da sua chegada ao estúdio para seu primeiro trabalho na Vera Cruz para fazer o filme Terra é Sempre Terra. O diretor ficou visivelmente decepcionado com a visão que teve. Ruth, então, jovem e bastante magra (pesava 45 quilos), não era o estereótipo que ele tinha da mulher negra. Ele, Abílio Pereira de Almeida, exclamou: “Você é muito magra!”. Não satisfeito, completou: “Eu pensei que você fosse uma mulher gorda”. Ruth, bastante preparada para estas situações, respondeu na lata: “Mas você já viu colona gorda? Você está me confundindo com a Mammy, de... E O Vento Levou”.  Apesar do absurdo da situação, ela acabou entendendo o diretor e viraram amigos depois disso.

A emocionante vida da atriz é uma aula de história para conhecer um pouco melhor os bastidores do mundo artístico brasileiro – cheio de olhares equivocados e racistas. Contudo, a generosidade da atriz é tanta, que você não irá encontrar sequer qualquer mágoa por algum trabalho que não tenha feito ou coisa parecida.

Não é de hoje que sabemos que nosso país não tem memória. Fatos acontecem, revolucionam o cenário e depois de um tempo, poucos se lembram. O mesmo pode ser dito em relação às pessoas importantes na nossa história. Elas chegam, das mais variadas formas, realizam um trabalho excepcional e depois... Novamente, ninguém mais se lembra.

País de grandes atores e atrizes, o Brasil ainda tem muito a percorrer para tentar mudar este quadro, uma vez que o que é valorizado parece ser unicamente o elenco da atual novela em exibição. Em muitos casos, a sensação que temos é que “ser ator” é estar em cena na novela da Rede Globo. Raras são as exceções. Num país de Darlenes... Célebre é aquele que está na capa da Revista Caras.

Como uma alternativa de reverter este triste quadro e tentar “recontar” nossa história nas mais diversas áreas, como cinema, televisão e teatro, a Coleção Aplauso Perfil oferece uma excelente oportunidade. A cada edição, um grande artista brasileiro tem sua vida contada, sempre de uma forma agradável, num texto claro e emocionante. Em alguns casos, num relato feito pelo próprio retratado.

Recomendo a leitura de Ruth de Souza: uma estrela negra.

Um comentário:

  1. Esta mulher, que era realmente muito magra, é uma das mais preciosas joias que surgiu na vida das artes neste país.

    Sei muito pouco de sua vida particular, porém muito do que fez pelas artes, uma vez ter assistidos a muitos de seus filmes (quase que 70%, assim como suas novelas).

    Foram mais 30 filmes, numero mais ou menos semelhante de novelas, sem falar em sua vida no teatro, que não andou muito para trás.

    Recordo dela, ainda muito esguia e até muito bonitinha, em Ravina/58, Sinha Moça/53, A Morte Comanda o Cançaço/60, do bom e acurado Carlos Coimbra (que ainda nos deu em 72 o bem feito e delicioso Independencia ou Morte), além de muitas outras pedras preciosas que esta mulher nos presenteou como, por exemplo, Assalto ao Trem Pagador/62, de Farias.

    E em todos os papéis sempre representando sub tipos, como domesticas, escravas ou coisas assim.
    Uma atriz de fato e, portanto, merecedora desta pequena homenagem.
    jurandir_lima@bol.com.br

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